Contos Desprentensiosos

Contos do Trunkael



Domingo, Abril 23, 2006

Detalhes da Proximidade

Ela se aproximou novamente procurando contato, mas dessa vez ele deu um passo para trás, se abaixou, pegou um graveto no chão e fez uma linha.
- Daqui você não passa. Esse aqui é o meu lugar, quando eu puder atender você, eu atravesso a linha, você não.
Ela olhava fixo nos olhos dele, as lágrimas começaram a borrar a triste paisagem que se fez por trás da linha. Ele retribuía o olhar com dor, mas com a firmeza de um garoto que não queria mais apanhar e por isso fugiu de casa.
- Eu não estou dizendo que quero você longe de mim, simplesmente não quero você aqui, desse lado de cá. Esse é meu mundo, você não pode invadi-lo assim, não mais, pois quando eu deixei você à vontade você não soube aproveitar e acabou machucando a nós dois.
A voz dele sinalizava um choro iminente. Os olhos brilhavam mais que o necessário, ela sorriu.
- Não posso ficar tão próximo de você, isso se chama instinto de auto-proteção. Preciso de um pouco de tempo para pensar, para sorrir, antes de sofrer novamente.
Ela entendia muito bem o que ele quis dizer, mas mesmo assim arriscou e deu mais um passo, pisando a linha e ficando perto o suficiente para arriscar um beijo. Não arriscou, não gostava de furto, mas sim de assaltos.
Ele deu outro passo atrás e fez outra linha.
- Não se atreva... Por favor.
Ela olhou de ladinho nas feições de um cachorro que quer, mas não consegue entender o que diz o dono. Sorriu. Mas não foi só um sorriso, foi um flerte, um estupro, uma declaração.
- Você quer realmente que eu te deixe em paz, gatinho?
Ele não conseguiu dizer nada, as lágrimas evaporaram e se transformaram em nuvem e ele ainda está calado, surpreso, indefeso. Ela percebeu que ele não tinha mais defesas, deu mais dois passos e o abraçou forte, queria protegê-lo até de si mesmo. Segurou-lhe o rosto e deu um beijo delicado como de uma criança, sem malicia, sem luxuria. Sorriu, deu dois passos atrás, abaixou-se, pegou um graveto no chão, riscou uma linha, soprou um beijo e se foi.

postado por: TRUNKAEL H MAIRS 7:45 PM
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Sábado, Fevereiro 11, 2006

Jogo de Risco

Ele ajeitou a camisa polo desnecessariamente e disse para si mesmo - venham garotas, sou todo de vocês. Entrou desfilando naquela seção e realmente conseguiu chamar atenção, homens e mulheres deslocaram seu olhar da tela do computador para sua presença. Ele se sentiu demais, estava inchado, explodindo de vaidade.
Chegou até o final da seção, se encostou na mesa da secretária (loira, oculos, cabelos presos em coqui, batons mais vermelhos do que o necessário).
-Posso falar com ela? - a secretaria sorria antes dele começar a falar, mas quando ele piscou entre as palavras, o olhar dela se verteu em furia.
-Quem gostaria?
- Diga que é o namorado dela.
Ela sorriu debochando e pegou o telefone. Ele fez cara de interrogação e segurou a mão dela.
-Você não precisará informa-la de minha presença se aceitar sair comigo essa noite - deu um sorriso, não um explêndido sorriso, apenas um sorriso desses que se vende na esquina, um bonito sorriso, mas não um sorriso especial.
Ela sorriu em retribuição, e quando aquela situação poderia se transformar em um clima, a porta da chefe se abriu. Uma mulher gorda e feia parou olhando os dois. A secretária, perita em desculpas, agradeceu ao rapaz por medir o pulso dela, se virou para chefe e disse que já estava ligando para anunciar a chegada de seu namorado.
-E por que você estaria me anuciando a chegada de seu namorado?
-Não, não é o meu.
-É, por que estaria anunciando minha chegada meu amor? - disse ele piscando para a loira.
-É que ia pedir uma folga para hoje a noite. - se deslisou entendida.
-Mas você não trabalha a noite - retorquiu a chefe sem nada entender.
-Então creio que podemos jantar sim... meu amor. - deu uma piscadela para o rapaz que ainda nem sabia o nome.
-Está quase na hora, vou te esperar no café ali da frente ok? - deu uma piscadinha ensaiada e se foi.
-Bonito seu namorado - comentou a chefe - mas não quero vê-lo aqui novamente ok?
-Sim senhora, com certeza ele não voltará aqui, não se preocupe.
A chefe não entendeu o sorriso dela, não entendeu o por que todas as outras pessoas da seção olhavam para elas, não gritou intimidamente para todos voltarem ao trabalho, apenas sussurrou para si mesma - o que eu queria é que um homem desse aparecesse para me visitar - e voltou triste para sua triste sala.

postado por: TRUNKAEL H MAIRS 8:45 PM
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O Besouro

Enquanto tenta se concentrar se pega distraido olhando para um besouro. O besouro é definitivamente um bixo muito pouco inteligente, e sem dúvidas não foi feito para voar. Não é possivel que um inseto bata tantas vezes no mesmo lugar e sempre caia de cabeça para baixo. A existência do besouro é uma contradição à teoria Inteligent Design, o besouro é uma prova da inexistência de Deus.
Do outro lado da sala um grilo escala a parede. Olhando mais de perto você consegue ver que o grilo se desespera enquanto uma formiga lhe come a perna de trás. É algo absurdo se você pensar bem, uma formiga come a perna de um grilo vivo sem condições de se defender. O grilo deixa sua perna para lá e voa para longe, a formiga cai vencedora. São ambos mais inteligentes que o besouro.
E ele ainda está lá, de cabeça para baixo batendo as asas loucamente. A formiga vitoriosa passa perto dele despreocupada, o besouro parece pedir por socorro silênciosamente.
Depois de pensar que imaginar sentimentos humanos em bixos era como brincar de pokémon ele volta ao trabalho. Fixa o olhar na tela procurando uma solução, e vê apenas o branco. Levanta-se para refrescar a mente e sem querer pisa no besouro. O barulho de estalo incomoda, mas ele se sente um salvador, acaba de libertar uma alma grandiosa que estava presa em um corpo inútil. Foi um pensamento budista de nível ridiculo, eu sei, mas foi exatamente isso que ele pensou.
Agora a prova da inexistência divina estava morta e a resposta que ele procurava surgiu em sua mente como um estalo.

postado por: TRUNKAEL H MAIRS 8:42 PM
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Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Ansiedade

Só sei que quando você não está aqui tudo que faço é ficar olhando e-mail, desesperado porque só tem spams, nem sequer uma mensagem no orkut. Você preenchia o espaço que agora me desespera em uma patética crise de carência. Olho para suas fotos, todas feias, pregadas tortas na minha parede e agradeço por você não estar mais aqui. Tento em vão me consolar numa reza infantil de "não preciso de você".
Vou matar cada ser humano que diz que pode viver sozinho, que vive sozinho e se diz feliz. Malditos mentirosos que cobrem sua incopetência com uma bandeira de autosuficiência.
Se eu ficar aqui mais um pouco vou começar a ver pornografia, ai será o ápice de minha decadência.

Ele se levantou meio cambaleante como se não soubesse mais usar as pernas, olhou ao redor à procura de seus chinelos.
Merda, o que estou fazendo afinal?
Achou os sapatos empoeirados e calçou. Pegou a camisa que menos estava amarrotada e foi em direção da porta resoluto.
Acho que preciso de um banho antes
Virou tropeçando nos próprios pés e começou a se despir para ganhar tempo.
O que tenho que fazer é simples, me arrumo, coloco um cheiro bom, atrativo, entro em um bar, escolho estrategicamente um lugar do qual poderei ver todas as garotas que entram, bebo um martini para tomar coragem e ataco a primeira que aceitar um drink. Simples, simples demais, todos fazem isso.
Empolgado visualizava a garota entrando sozinha na boate e olhando diretamente para ele, uma piscadela, um aceno, um drink, beijos amassos, roupas jogadas no chão de seu quarto. Ora, como nosso personagem é sonhador não é?
Terminou o banho e começou a se vestir como se fosse um ritual antigo a qual não se lembrava bem. Olhou para seu computador e viu uma nova mensagem, fingiu que aquilo não era importante, mas seu coração batia cada vez mais forte e o que antes parecia ser um ritual complicado se tornou um simples vestir de panos como se estivesse atrasado.
Antes de colocar o cheiro bom ele se precipitou até o computador, a mão que segurava o mouse tremia, clicou na caixa de entrada e leu o título da mensagem "Free Lolita's MPEG!". Primeiro ele riu de si mesmo, depois foi tomado de um grande ódio e jogou seu computador pela janela.

postado por: TRUNKAEL H MAIRS 2:21 PM
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O Sorriso do Gato de Alice

Ele estava sumido, ela o estava procurando. Ele bebia conhaque no balcão de um boteco sujo na periferia da cidade. Quando volta do banheiro ela estava sentada em seu lugar.
-Apenas fui ao banheiro.
-E o que fazia lá?
-Estava me masturbando - era para ser engraçado, na cabeça dele era a coisa mais engraçada do mundo, não conteve um sorriso tão irônico e sádico, que qualquer pessoa com menos auto-controle que Beatriz lhe afundaria o nariz com um soco.
Ela se conteve, deu uma risada timida como se ouvisse uma obcenidade da boca de uma criança.
Pena que não cheguei a tempo não é? - Deu uma piscadinha, aproximou o rosto do dele e o beijou. Era por piedade que ele não virou o rosto. Ele sabia muito bem que sua felicidade era nociva e despresar aquele beijo poderia significar o fim da vida daquela linda moça.
-Para você tenho todo tempo do mundo - resmungou entre o resfolar das linguas, não por que era uma verdade, mas por que ele não conseguia mais sair daquele mundo ilusório que criara a tanto tempo.
Subiram. Ele, ao contrário do que poderíamos pensar, fez amor, ela fez sexo, como se fosse sua ultima vingança, se dar por completo sem um pingo de amor, apenas luxuria. É uma pena que ele nunca vai entender essa vingança a não ser que leia essas linhas.
Sem saber como terminar a comunicação tão complicada dos dois corpos ele olhou nos olhos dela e deixou escapar palavra tolas: "te amo", tão baixo que ela ignorou, e como se ela que estivesse entediada desde o começo (mesmo depois de ter seu primeiro orgasmo) disse que tinha que ir para sempre.
Para sempre.
Era o pagamento de uma dívida. A garotinha que entrou no quarto pediu para que desocupassem, afinal não eram donos do lugar. Daniel se levantou correndo como se estivesse cometendo um pecado mortal. Beatriz se levantou lentamente, vestiu sua roupa estudando a garotinha de olhos grandes e pidões. Daniel se vestiu de olhos baixos, não conseguiria encarar nenhuma das duas.
Por grande erro, antes de sair dali encarou a mocinha, 12, 13 anos no máximo. Não sentiu pena, não posso dizer o que sentiu, foi algo imoral, só posso dizer que foi algo imoral. Beatriz acendeu um cigarro. Ele nunca tinha visto ela fumar, na verdade ela tinha horror a cigarro até pouco tempo - os pensamentos dele não faziam sentido, a ordem cronógica de seu relacionamento falido estava embaraçada - ele se lembrava que ela nunca tinha fumado na vida e agora, como se fosse um maldição jogada pelo olhar de Daniel ela se engasgou com a fumaça e tossiu.
A cena foi deprimente, ela fazia o maior esforço possivel para parecer madura e dona de si, mas errou no seu ultimo ato e o espetáculo teve um trágico fim. Daniel sorriu complacente, tomou-lhe o cigarro e deu um trago, fazia tempo que não fumava e ficou um pouco mais tonto do que já estava.
-O que pensa que está fazendo Bia? - Parou na frente dela e arqueou as sombrancelhas de um jeito que só ele conseguia fazer, o olhar era tão fofo que as mulheres sempre o beijavam quando ele fazia isso.
-Não enche! Nem sei por que ainda está aqui. Por que não some denovo, já não temos nada entre nós... novamente.
-Sim, tudo acabou... novamente. E todo fim é um novo começo. Não exatamente nosso começo, mas um novo, possivelmente um bem diferente.
-Já te dei o que devia.
-Mas eu ainda não acabei. - E tentou beija-la. Ela se esquivou, uma, duas, três vezes e finalmente desistiu, beijou com furia, derrotada, incapaz de fugir não pela força, mas por volúpia ou por auto-piedade. Ela precisava disso mais do que ele e por isso ele deveria morrer, ela disse que não suportaria mais nenhuma dívida e mais uma estava se formando na falta de espaço entre os corpos.
Passou o tempo de uma música e finalmente os corpos se afastaram seguido de um estalido de bofetada. Daniel caiu no chão fingindo estar desacordado, e ela se ajoelhou pedindo desculpas e tentando reanima-lo. Mas Daniel gosta de ser sádico e continua de olhos fechados sentindo prazer no desespero da moça. Lagrimas começam a brotar nos olhos de Beatriz e Daniel pensa que é o bastante. Novamente abre aquele maldito sorriso sedutor. Bia nem imagina quantas mulheres ele já conquistou apenas com esse sorriso. Ela foi apenas a primeira, embora a ultima a se entregar por completo.
Ele era um canalha e ela sorriu em prece. Beijou ele como se fosse uma criança fofinha. E ele gargalhou como um bebê em cocegas. Quando aquele momento se dissipou voltaram a realidade, ou melhor, à ilusão controlada deles dois. Agora ela iria embora para sempre, estava livre para isso. Ele se levantou, fez como se tirasse poeira da calça e disse que ia embora.
-Para onde?
-Para casa.
-Também vou.
Ele sabia que sua felicidade era nociva e que dizer não poderia significar o fim da vida daquela linda moça, por isso esticou o braço, alcançou a mão dela e andaram em silêncio de volta para casa.

postado por: TRUNKAEL H MAIRS 2:21 PM
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